7 de setembro de 2008

A minha fuga mais feliz


Porque são as viagens de sonho? Pela expectativa da espera do momento da partida ou pelo esforço necessário ao seu custeio?
Se de “sonho” é, terá certamente que envolver prazeres e sensações. Precisamente da busca de sensações, aconteceu esta “viagem”.
O veraneio é monótono, mas há surpresas que podem ser bons lenimentos para a alma.
Experimentei um percurso sem planos nem roteiros oficiais. Vi o que nunca tinha visto, apesar de lá ter estado sempre...
Olhado, mas não visto.
Sem máquina fotográfica, sem caneta e caderno. Só os sentidos.Um regalo de experiências.
Retomo o meu passeio urbano, na reconfirmação do já visto.Retomo sensações.
Observo mais atento, as pessoas.
Vida real e autêntica, com alegria, com tristeza. Com vida.O pintor, artista, que se aplica na conservação de uma grade de varandim.É a conservação do património, no seu mais elementar processo.O sentido de conservação das "pedras", mas para valorização das "pessoas".
Belas ruas, belas calçadas. Casario nobre, casario pobre.
Bom gosto na sobriedade. Mau gosto deprimente. Tudo convive, tudo se mistura e absorve num olhar. Mentalmente tenta-se o arranjo, a conciliação.
Pré-determinação ou elitismo? Conclusão difícil. Só a apreensão final conta.
No somatório das ideias e sensações, o resultado é extasiante.
Nada deve mudar. Experienciar enquanto há, pois é realmente o caso – “Antes das pedras, as pessoas.”.
Já agora, tudo isto se passou em Vila do Conde. A cem metros da porta de casa, no sentido oposto à orla marítima. Após trinta e muitos anos de frequência sazonal, com viagens enormes a outros destinos pelo meio. Para alguns de sonho. Mas o “sonho” afinal estava ali. Simples, como todas as coisas boas da vida.
A foto do costume, com toda a tecnologia actualizada, não há. Não fiz a “chapa”. Optei por guardar na minha mente, num compartimento de sensações ao qual recorro com frequência. Quando sonho com a vida. Mas para contornar a falta de “chapa”, envio uma moldura (vazia) para que cada um vá ao seu compartimento de sensações e escolha. Experimentando e descobrindo que, afinal no “sonho”, todas as viagens o são.

Vila do Conde, 20 de Agosto de 2008


Publicado in Jornal Público, Caderno Fugas, 6 de Setembro de 2008